O homem sem caráter

Capítulo 1 - O homem sem caráter

Fritz Perls, psicoterapeuta alemão já falecido (1893-1970), foi o criador da Gestalt Terapia, um processo terapêutico que tinha como objetivo tornar o indivíduo mais consciente de suas sensações, percepções, emoções e atitudes, sempre no momento presente.

A Gestalt Terapia (GT) se diferenciou das demais linhas terapêuticas por sua abordagem vivencial. Na GT o paciente é estimulado a criar, recriar e viver situações reais, atento a suas reações, sensações e sentimentos no espaço da sessão.

Nessa situação o paciente se torna consciente do seu caráter, ou seja, do conjunto de reações particulares a determinadas situações que o caracterizam.

Costumamos valorizar o caráter de um indivíduo. Uma pessoa “de caráter” é aquela que, mesmo diante das mais irresistíveis tentações, age de acordo com seu código interno de conduta, um padrão pré-definido baseado na sua educação, religião, sentido de moral e experiência de vida.

Quanto mais forte o caráter, mais incorruptível é o indivíduo.

Quanto mais forte o caráter, mais previsível a reação da pessoa diante de determinadas situações.

Essa é uma situação muito confortável para todos.

Para o indivíduo, porque, na maioria das vezes, não precisa mais tomar decisões. As coisas já foram classificadas em “certas” e “erradas” e ele já sabe que se sentirá bem se fizer o que é “certo”, e mal se fizer o que é “errado”. Escolherá entre essas duas alternativas e conviverá com as consequências de sua escolha.

O conforto para as pessoas que o cercam vem da previsibilidade. Esse indivíduo não nos surpreenderá. Podemos contar com a regularidade de suas escolhas e decisões.

O caráter é uma estrutura mental que protege o indivíduo de seus desejos e a sociedade do inesperado.

O preço da ausência dessa estrutura seria a eterna vigilância.

O indivíduo precisaria estar permanentemente atento, pesar e avaliar cada decisão como se fosse a primeira vez. A sociedade não poderia confiar mais na resposta padrão daquele indivíduo e sua presença seria motivo de insegurança.

Não esperamos que uma mulher honesta traia seu marido ou que um renomado criminoso ajude um deficiente visual a atravessar uma rua. Quando uma dessas coisas acontecem, nos assustamos. Nosso mundo, tal qual o conhecemos, corre perigo. Quem é “bom” deve ser sempre bom e quem é “mal” deve ser sempre mal para que tudo seja como deveria ser.

Que situação difícil essa em que as pessoas não sabem antecipadamente o que farão, ou o que seus amigos próximos e familiares farão, diante de cada situação.

Quão penosa e desgastante pode ser essa exigência de atenção permanente, de presença consciente em cada momento, a cada gesto.

Como seria confusa uma sociedade na qual cada indivíduo estivesse sujeito às suas emoções, desejos, sensações e sentimentos de forma contínua e permanente, influenciando cada uma de suas pequenas ou grandes decisões cotidianas.

Estamos totalmente despreparados para isso.

Mas acontece que isso é a vida.

Estar vivo é estar aqui e agora, no momento presente, sujeito às emoções, desejos, sensações e sentimentos, à mercê dos conflitos conscientes e das pulsões inconscientes.

Estar vivo é poder decidir o que iremos fazer a cada segundo, ainda que essa nova decisão seja igual à anterior, mas sem a obrigação de que seja.

Estar vivo é estar livre dos hábitos, dos preceitos morais ou religiosos, das responsabilidades sociais, das autoridades externas.

Isso não quer dizer que a pessoas irá agir de forma imoral, irresponsável ou “pecaminosa”, que será insubordinado ou que prejudicará um outro ser humano. Mas quer dizer que ela tem liberdade para fazer tudo isso, se for essa a sua decisão, arcando com as consequências de seus atos.

As três religiões universais da época moderna são relativamente recentes e surgiram durante um momento particular da história humana. O Budismo, o Cristianismo e o Islamismo nasceram num intervalo pouco mais de mil anos.

Quando somos educados para seguir uma religião, temos a impressão de que ela atesta uma verdade única e que sempre existiu. Mas o Budismo nasceu aproximadamente 500 anos antes de Cristo. O Cristianismo tomou forma nos três séculos posteriores ao nascimento de Cristo e o Islamismo quatrocentos anos mais tarde.

O Judaísmo, embora não seja considerado uma religião universal porque se restringe a um único povo, antecede as três já mencionadas e pode ser considerada a primeira grande religião monoteísta da história conhecida da humanidade, havendo inspirado o Cristianismo e o Islamismo.

Alguns autores levantam a hipótese de que os mesmos pensamentos filosóficos que inspiraram o surgimento do Budismo tenham contribuído para o surgimento do Cristianismo, derivado da religião judaica e, consequentemente, do Islamismo.

O Hinduísmo, que também não é considerado uma religião universal por sua limitação geográfica, praticamente restrito à Índia e ao Nepal, antecede às quatro religiões anteriormente mencionadas e embora seja politeísta, baseia-se na existência de um espírito divino, infinito e não personalista, Brahman, que, de certo modo, é a semente do monoteísmo.

Um número menor de autores sugere que tanto o Hinduísmo como o Budismo foram inspirados pela filosofia Tântrica, dada a similaridade de seus fundamentos, assim como a filosofia Grega teria influenciado o Cristianismo.

Mas há duas coisas verdadeiramente importantes para se observar no que se refere às principais religiões que definem nossos padrões de conduta e estabelecem os conceitos de “certo” e “errado” que norteiam a nossa existência.

A primeira delas é que são recentes. Três mil anos não são nada se comparados à história da humanidade. O Homo Sapiens, espécie à qual pertencemos, existe há 200.000 anos, pelo menos. A vida na Terra iniciou-se há mais de 3 bilhões da nos. As religiões que regem a nossa vida foram criadas pelo homem moderno.

A segunda observação relevante é que essas religiões precisaram de um patrocinador poderoso para se expandirem e essa é a principal razão pela qual as religiões anteriores não se tornaram universais. Não existiam aglomerados populacionais suficientemente grandes e nem homens suficientemente poderosos para difundir as religiões fora de suas regiões de origem no passado remoto.

A entrada de uma religião em um novo território dependia da boa vontade do governante. Na medida em que os grupamentos sociais se tornaram maiores e se transformaram em grandes cidades, as religiões surgiram como uma boa alternativa para se obter a coesão social em torno de princípios éticos e morais que tornavam a administração mais fácil.

Seguidores de uma religião devem obediência a um código de conduta e, portanto, suas decisões, atitudes e comportamento são mais previsíveis.

O governante de uma grande cidade recebia com simpatia uma religião que contribuísse para que o povo ficasse satisfeito com sua vida simples e muitas vezes sofrida.

E a religião sempre foi uma alternativa para a angústia e o medo diante do desconhecido.

O Budismo foi a primeira religião não-teísta (sem deuses) a nos oferecer a ideia do amor, da compaixão e do desapego como caminho para felicidade. Vale comentar que amor e desapego são preceitos tântricos que, levados para os templos budistas, formaram a base dessa religião/filosofia.

O Cristianismo e o Islamismo, além disso, nos oferecem um Deus Pai todo poderoso e amante de sua criação, sempre disposto a nos proteger e guiar, mesmo nas piores situações.

A religião nos oferece conforto, segurança e o otimismo, mesmo nos momentos de adversidade, através do amor universal, embora nem sempre incondicional.

Mas também restringe nossa liberdade de ser, embora seja muito difícil concordar com essa afirmação depois de abraçar uma religião.

Robert Happé, filósofo holandês responsável pelo Centro de Educação Espiritual que leva seu nome em Araçoiaba da Serra - SP, disse em um encontro recente:

“No futuro vamos olhar para nossa época e dizer que essa foi a época em que o homem começou a despertar. Vocês já podem observar milhões de pessoas em todo mundo despertando. Essas pessoas olham para suas vidas e para o mundo onde vivem e finalmente começam a perceber que não gostam do que vêem. E isso é o despertar. Despertar significa se tornar consciente de quem e do que nós representamos. Muitas pessoas parecem representar o poder do medo. Então você deve pergunta-se de que lado você está ? Porque só existem dois lados: ou você representa o amor que trouxe das estrelas para esse mundo físico, ou você se tornou tão programado pelo medo que todas as instituições colocaram em você que o ruído desse medo na sua mente é alto ao ponto de não permitir que escute a voz sutil do seu coração.” (Robert Happé, Dezembro 2011)

Despertar é conhecer a si mesmo, é conectar-se com seus sentimentos, desejos e emoções. É ser livre para sentir, pensar e decidir. É ter a liberdade de existir e de ser que você verdadeiramente é, sem medo de julgamentos.

Despertar é não deixar que decidam por você.

É poder amar a si mesmo, sendo quem você é, além do caráter que escolheu para vestir-se.

Despertar é desvestir-se do caráter e do medo, e enfrentar o desafio de ser.

KUSHI


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