Entrevista com Kushii, mentor do Mundo do Tantra

O que é Tantra?

Tantra é uma filosofia de vida recomendada para o desenvolvimento pessoal e as relações sociais, pautada por escrituras milenares cuja origem se perde no tempo (referências anteriores a 3.000 aC). Acredita-se que tenha sido a fonte de inspiração para boa parte das religiões orientais como o Hinduísmo e o Budismo. Não existe uma entidade “oficial” responsável por definir ou zelar por esses ensinamentos que são, em boa parte, referenciados pela tradição oral. Dessa forma, existem muitas interpretações para a filosofia tântrica e alguma divergência entre elas. Os pontos comuns, e que define suas essências, são dois paradigmas: a liberdade de ser e a expansão da consciência. Uma das possíveis traduções para a palavra “tantra” é “expansão (tan) e liberdade (tra)”. Outra é ‘trama ou tecido”. Eu prefiro definir o Tantra como um caminho. Para mim, o Tantra é a trama que resulta da busca da “liberdade” e da “expansão”.

O que é uma vivência tântrica?

As práticas tântricas são, em essência, integradoras do ser. A filosofia tântrica não separa a razão da emoção, o sentir do pensar, o corpo da alma. Todos os seres e objetos são considerados manifestações de uma energia única que anima o Universo. As vivencias tântricas tem como objetivo conectar-nos com essa energia, começando por estimular a auto-percepção. Devido ao seu caráter vivencial e sensorial, que limita sua compreensão intelectual, o Tantra não se conhece lendo, assistindo palestras ou discutindo com especialistas e Gurus. Precisa ser vivido. As vivencias são exercícios sensoriais e meditativos que promovem a integração do ser. Elas podem ser autônomas (realizadas pelo praticante sem ajuda ou acompanhamento), orientadas por pessoas mais experientes ou estimuladas pelos companheiros de caminhada.

Porque tantra costuma ser associado a sexo e "safadeza"?

Por conta de sua natureza pouco repressora e do estímulo a vivências sensoriais que incluem rituais prazerosos, os primeiros acadêmicos (principalmente ingleses) a discorrerem sobre o assunto, ainda no século XIX, descreviam o Tantra como um conjunto de rituais pagãos e primitivos, altamente sexualizados.Naquele momento histórico a Inglaterra era um país protestante e conservador, a sociedade de castas da Índia já havia sido fortemente “contaminada” pelo domínio inglês e o Tantra era “praticado” principalmente por sociedades “secretas” promotoras de encontros que, observados pelos “não iniciados”, bem poderiam ser interpretados como orgias sexuais. Era praticamente impossível para um puritano acadêmico inglês, cuja educação se baseava em princípios como o sofrimento e a castidade como caminhos para elevar o espírito, reconhecer algo de positivo em “rituais” de prazer. Daí nasce boa parte do preconceito que o mundo ocidental tem em relação às práticas tântricas. Ocorre que, para os tântricos, o prazer é um caminho “sagrado” para conexão com o “divino” (ou a energia que anima o Universo). Nesse contexto, o sexo, a nudez e o contato físico afetivo são tratados com muita naturalidade. Tem um significado diferente daquele atribuído pela cultura ocidental com a qual estamos acostumados. Para um tântrico, a ideia de fazer sacrifícios pessoais para evolução espiritual é tão estranha quanto os princípios tântricos podem parecer para um cristão. O sofrimento eventual é recebido como parte da vida, e deve ser elaborado e superado com desapego, não recebendo nenhum mérito especial. O prazer e a felicidade, por outro lado, são percebidos como manifestações da conexão com a energia do Universo.

Qual a diferença entre uma massagem tântrica terapêutica e uma vivencia sensorial tântrica?

Uma massagem tântrica é uma das possíveis vivências sensoriais. Poderá ser “terapêutica” dependendo da intenção com que é realizada. A experiência indica que receber massagens tântricas pode trazer benefícios significativos e auxiliar na solução de alguns dos problemas mais comuns relacionados com a sexualidade e é por isso que essa prática vem se tornando bastante popular, apesar dos preconceitos. Uma das vantagens de caracterizar uma massagem tântrica como “terapêutica” é diferencia-la de “serviços sexuais”. Terapeutas tântricos não oferecem serviços sexuais a seus clientes. Embora a massagem tântrica possa incluir toques na região genital e certamente possa ser interpretada como estímulo erótico, particularmente nas primeiras sessões, ela se diferencia pela intenção e pelos resultados. O fato de uma massagem tântrica terapêutica poder provocar orgasmos deve ser considerado um agradável “efeito colateral”, consequência da reação natural do corpo ao estímulo sensorial.

O que acontece durante uma vivencia sensorial tântrica?

A experiência difere de pessoa para pessoa, e para mesma pessoa em momentos diferentes. Toda vivencia sensorial tântrica, entretanto, conduz à auto-percepção. Durante a vivência a pessoa é convidada a focalizar sua atenção em suas sensações que, com isso, são percebidas de forma mais intensa. O resultado é uma viagem de autoconhecimento, de natureza meditativa. Dependendo do nível de “entrega” à vivência, podem ocorrer as mais diversas reações como a liberação de emoções (acompanhada de choro ou riso), relaxamento profundo, alegria, bem estar, tristeza, prazer intenso ou mesmo desconforto. É importante que o praticante aceite e acolha essas reações para que possa elabora-las da melhor forma.

Quais são os beneficios de uma vivencia sensorial tântrica?

Vivências sensoriais tântricas podem ser desenvolvidas com diferentes objetivos, mas todas elas terão como benefício o autoconhecimento, a expansão da consciência e o desenvolvimento da autoestima.

É muito estranho pensar em se despir e ser "estimulado (a)" por uma pessoa com a qual não temos intimidade - como superar isso?

As massagens tântricas e algumas outras vivencias sensoriais são realizadas preferivelmente sem roupas por razões óbvias. O estimulo sensorial tátil é mais intenso quando realizado diretamente sobre a pele. A nudez também permite o uso de estímulos mais sutis. Por razões culturais e comum que a pessoa sinta um certo desconforto inicial com a nudez, principalmente quando a vivência for assistida (orientada ou estimulada).Por outro lado, a nudez também promove a aceitação do próprio corpo e é, por si só, uma experiência tântrica.Minha recomendação é que não se dê mais atenção a esse desconforto inicial do que ele realmente merece. Os praticantes de Tantra estão acostumados com a nudez e certamente não estarão julgando seu corpo ou sua atitude.As pessoas que já passaram por isso afirmam que o desconforto irá desaparecer logo após os minutos iniciais da vivência, dando lugar a uma agradável sensação de liberdade e bem estar. Vale a pena o investimento nesse minuto de coragem. É interessante notar que essa é uma preocupação comum à maioria das pessoas que vão participar de uma vivencia tântrica pela primeira vez, mas que é praticamente ignorada já a partir da segunda vivência.Também é bom lembrar que a maioria das vivências tântricas não precisam ser realizadas sem roupas.

Há quem não goste da vivencia? há quem goste "demais"?

É muito raro que alguém não goste de uma vivencia tântrica bem conduzida. Já pude observar esse acontecimento durante o treinamento de terapeutas tântricos, em vivências sensoriais estimuladas por pessoas sem experiência, que ainda estavam em processo de aprendizagem. No caso de vivências menos intensas e que exigem maior participação e entrega do praticante (como exercícios de respiração ou de movimento do corpo, similares aos da Yoga), pode acontecer uma certa frustração. Esses exercícios exigem um longo aprendizado corporal e disciplina mental, que não estarão presentes nas primeiras vezes em que forem executados. Os resultados iniciais são, geralmente, muito sutis e podem desapontar o participante. Vivências mais intensas ou que exigem menor experiência, como é o caso da massagem tântrica, são sempre agradavelmente surpreendentes. Já o risco de “gostar demais” sempre existe. Mas essa sensação de gostar demais é a semente da autoestima. Foi você que se permitiu a experiência. Foi você que sentiu prazer. Você é a origem dessa sensação agradável ou desse prazer intenso. A repetição das vivências contribui para desenvolver um sentimento de gratidão pela existência e amor pela vida e por si mesmo.

Precisa fazer mais de uma vez? onde acaba isso? aonde irá levar?

Nada é mandatório no Tantra.Você pode fazer mais de uma vez. E provavelmente desejará experimentar novas vivências tântricas porque se sente bem com isso. Descobrir que o prazer pode ser um caminho para o desenvolvimento pessoal é libertador. Como todo caminho para o desenvolvimento pessoal, esse também não tem fim. Quanto mais você permitir vivenciar, mais se desenvolverá. Aonde irá levar, dependerá de você. É o seu caminho para o autoconhecimento, para a liberdade de ser e para a expansão da consciência.


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