Amor e Preconceito 

as dificuldades da profissão de terapeuta tântrico

Ser terapeuta tântrica não é fácil na sociedade que vivemos.

Obrigadas a encarar o preconceito pela conotação sexual atribuída à atividade, é muito comum que se vejam obrigadas a esconder a própria profissão.

A terapeuta Nana Tantra, de 45 anos, tem a liberdade de contar para amigos, familiares e seu atual companheiro. “Apesar de falar sobre isso com liberdade, evito explicar o que faço em lugares agitados, pois ainda há muito preconceito com a palavra ‘sexo’.

Respeito o limite de cada um”, completa.Gaby Namastê, 27, está solteira no momento, mas diz ter sofrido muito com o preconceito. “Já tive que ouvir de um terapeuta tântrico que não namoraria uma terapeuta”, comenta. Gaby acredita que esse preconceito acontece por ciúmes, medo e pela associação equivocada do Tantra à prostituição., apesar da enorme distância entre as duas atividades. “O tantra promove o desenvolvimento da energia sexual durante as sessões e a terapia ajuda a liberar as emoções represadas apenas com amor e prazer”, explica a terapeuta.

Em contraponto, a terapeuta Dhara Prem, 30, não costuma revelar publicamente sua profissão e está sozinha no momento. “Infelizmente, apenas minha mãe, irmã e poucos amigos sabem”, explica ao dizer, também, que só conta para aqueles que entendem o Tantra como uma terapia. Dhara conta sobre a dificuldade de estabelecer um relacionamento sério, pois não se imagina com alguém que não aceite seu trabalho atual. Para ela, o Tantra é o caminho do amor, carinho, respeito e cumplicidade. “O tantra não muda apenas suas relações sexuais, mas todas as relações de sua vida. Desejo uma pessoa disposta a entender essa filosofia de vida”, completa.

Nana deixa bem claro que o conhecimento Tantrico ajuda muito na relação a dois. “Saber tocar um homem e ou uma mulher com os toques do Tantra faz a diferença, pois tocamos em partes do corpo que fazem a reação de prazer ser melhor!”, ela afirma e completa dizendo que isso aumenta a intimidade do casal e intensidade dos orgasmos.

De fato, a aceitação pela sociedade é um dos principais problemas na vida de uma terapeuta tântrica.

Segundo as terapeutas, o tantra é uma filosofia milenar e não tem nenhuma relação com prostituição.

Entretanto, os tabus relacionados com a nudez, o sexo e o prazer, aliados ao desconhecimento da filosofia, levam as pessoas a considerarem a estimulação sensorial como um tipo de serviço sexual.

“Quem trabalha com tantra acaba tendo outra visão do que é sexo, prazer, orgasmo, tocar, sentir, amar um corpo e o ser de dentro deste corpo. Passa a sentir mais profundamente este prazer não vem só do sexo ...” – reforça Gaby Namastê.

Uma cliente que preferiu não se identificar em função desse mesmo preconceito, saindo de sua primeira sessão tântrica fez um entusiasmado depoimento que confirma as palavras da terapeuta.

“Tudo começa com a curiosidade e com a vontade de conhecer algo que possa trazer mais magia ao prazer.  Ao chegar fui recebida com muito carinho e hospitalidade, algo que já me deixou com um sentimento diferente do que eu havia imaginado.  Pensava que seria uma atmosfera mais voltada para uma safadeza e acredito que muitos pensem assim.  Mas ao receber uma explicação do que se trataria, comecei a mudar minha percepção e me abrir a algo inesperado.  Tudo começa com um ambiente muito preparado para sensação de aconchego que se amplia quando um leve toque na planta dos pés se inicia.  Amplitude, acredito que no primeiro momento essa é sensação que senti, amplitude dos sentidos da receptividade.  Acredito que essa experiência tem tudo haver com recepção.  A medida que este toque suave foi se espalhando pelo corpo todo um arrepio delicioso vai sendo esboçado pela pele, e assim a sensação de relaxamento é muito intensa.  Estar ali, nua nas mãos de alguém desconhecido é algo novo cheio de dúvidas que acabamos nos esquecendo quando estamos entregues. Tudo compõe esse prazer: a respiração próxima ao nosso corpo e o calor que vem do outro. Tudo isso dentro de um momento que não exige trocas , pois estamos ali apenas para receber e sentir.  Neste momento estar nua é apenas um detalhe irrelevante e me permitir ser tocada tão intimamente já não era nada de mais .  Foi uma das melhores sensações que já pude sentir.  E o melhor, num momento que foi só meu sem precisar de reciprocidade.   É o que faz ser diferente do sexo, onde estamos compartilhando sensações com o outro. É o que te faz parar de pensar e apenas curtir o ápice do prazer. Amei!”

Nana complementa: “Eu aconselho a sentirem a energia dentro de seus corpos querendo vibrar muito!  Todos deveriam procurar aprender o toque no homem (lingam) e na mulher (yoni), pois faz muita diferença.”.

As palavras de um cliente frequente confirmam os benefícios apontados por Nana.

“ Procurei a massagem tântrica pela primeira vez por curiosidade e para me divertir.  Logo na primeira sessão me dei conta de como estava “travado” sensorialmente. Não estava mais acostumado a receber estímulos sensoriais e a deixar as sensações fluírem.  Descobri que era um controlador.  Resolvi me desenvolver, desarmar esse mecanismo de controle.  Fiz várias sessões e senti que minha capacidade sensorial foi aumentando a cada uma.  Não foi simples nem rápido, mas confesso que foi a terapia mais gostosa pela qual já passei.  O resultado é que hoje sinto meu corpo vibrar a cada toque, como nos tempos de adolescência. E, no dia a dia, me sinto mais feliz, mais pleno, mais leve .. gosto mais de mim.  Eu já havia passado por muitos anos de psicanálise, o que me ajudou muito. O contraste entre um trabalho mental como o da psicanálise e um trabalho sensorial como o da terapia tântrica é interessantíssimo. O primeiro a gente espera que seja transformador porque, afinal, estamos alí conversando, discutindo, elaborando.  O segundo surpreende porque é o corpo descondicionando a mente sem palavras, apenas através do toque.  Não estou dizendo que um substitua o outro.  Para mim foram complementares, ambos libertadores.  Mas o Tanta é bem mais divertido.”

E Dhara faz questão de deixar o seu recado para finalizar a entrevista:  “Pessoas que não conhecem o Tantra, permitam-se sentir o amor e seus diversos benefícios. Ser tântrico é ser completo, amar a vida, a sí mesmo e ao próximo.  O mundo deveria ser tântrico, pois assim não existiria tanta tristeza e infelicidade. Não julgue para não ser julgado; conheça e permita-se.”

Aparentemente as dificuldades que as terapeutas enfrentam em função do preconceito não irão terminar tão cedo, já que mesmo os clientes mais entusiasmados com os benefícios do seu trabalho preferem tratar o assunto com reserva.

 

por Débora Brotto